Confira uma seleção de livros essenciais, de autores nacionais e internacionais, para estimular o repertório, o pensamento crítico e o prazer da leitura em todas as idades
São Paulo, 05 de janeiro de 2026 – Em 7 de janeiro é comemorado o Dia do Leitor, data que reforça o poder transformador que a leitura exerce na formação intelectual, emocional e crítica dos indivíduos. Ler amplia repertórios, fortalece a compreensão do mundo e cria oportunidades de conexão com diferentes culturas, épocas e perspectivas.
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Segundo Renata Lima, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), cultivar o hábito da leitura desde cedo é uma das escolhas mais potentes para o desenvolvimento ao longo da vida. “Ler é uma forma de construir autonomia porque amplia o repertório simbólico e oferece instrumentos para nomear, organizar e questionar o mundo. É pela linguagem que o pensamento ganha densidade, que a empatia se complexifica e que o sujeito aprende a transitar entre diferentes perspectivas. Quanto mais cedo esse vínculo com a leitura se consolida, maior a possibilidade de formar leitores capazes de sustentar aprendizagens ao longo da vida”, afirma.
Para marcar a celebração, a docente seleciona 20 obras essenciais, brasileiras e estrangeiras, que atravessaram gerações e continuam indispensáveis para quem deseja compreender melhor a literatura e a própria condição humana.
AUTORES BRASILEIROS
A Hora da Estrela (1977)
Uma das obras mais célebres de Clarice Lispector (Ucrânia, 1920 – Rio de Janeiro, 1977), A hora da estrela conta a história da nordestina Macabéa, uma mulher miserável, que mal tem consciência de existir. Depois de perder seu único elo com o mundo, uma velha tia, ela viaja para o Rio, onde aluga um quarto, se emprega como datilógrafa e gasta suas horas ouvindo a Rádio Relógio. Apaixona-se, então, por Olímpico de Jesus, um metalúrgico nordestino, que logo a trai com uma colega de trabalho. Desesperada, Macabéa consulta uma cartomante, que lhe prevê um futuro luminoso, bem diferente do que a espera.
As Três Marias (1939)
A obra de Rachel de Queiroz (Fortaleza, 1910 – Rio de Janeiro, 2003) conta a história de três amigas inseparáveis, da infância em um colégio de freiras à vida adulta. Maria da Glória dedicou-se à maternidade e à família; Maria José, sempre devota, voltou a morar com a mãe e virou professora; e Maria Augusta, diferente das amigas, determinou-se a construir o próprio caminho: trabalhou como datilógrafa em Fortaleza e, lá, apaixonou-se. As Três Marias retrata o processo de ajustamento ao mundo pelos olhos das meninas e convida o leitor a acompanhá-las desde os medos e as incertezas da juventude até o amadurecimento. Assim, a autora vai mais fundo na perspectiva social e na agudeza da observação psicológica.
Capitães da Areia (1937)
Capitães da Areia é talvez o romance mais influente de Jorge Amado (Itabuna, 1912 – Salvador, 2001). Obra clássica sobre a infância abandonada, conta a história crua e comovente de meninos pobres que moram num trapiche abandonado em Salvador. O livro torna o leitor íntimo dos personagens, cada um deles com suas carências e suas ambições: do líder Pedro Bala ao religioso Pirulito, do ressentido e cruel Sem-Pernas ao aprendiz de cafetão Gato, do sensato Professor ao rústico sertanejo Volta Seca. Com a força envolvente da sua prosa, o autor nos aproxima desses garotos e nos contagia com seu intenso desejo de liberdade.
Grande Sertão: Veredas (1956)
Obra de João Guimarães Rosa (Minas Gerais, 1908 – Rio de Janeiro, 1967), Grande sertão: veredas é um mergulho profundo na alma humana. Neste clássico arrebatador, as paisagens percorridas pelos jagunços ganham uma dimensão universal e profundamente humana. Ao narrar o mundo através dos olhos de Riobaldo, o autor constrói um romance fascinante, que mescla sofrimento, luta, alegria, violência, amor e morte em uma prosa extremamente inventiva – reinventando a língua e elevando o sertão ao contexto da literatura universal, compondo o cenário de uma narrativa lírica e épica, uma lição de luta e valorização do homem.
Iracema (1865)
Obra da fase indianista de José de Alencar (Fortaleza, 1829 – Rio de Janeiro, 1877), Iracema é um texto básico da cultura brasileira, romance que construiu uma representação mítica do Brasil. O livro retrata a expressão nacionalista que estava em voga no século XIX, época em que os escritores buscavam construir o nativo brasileiro sob a ótica do ideal romântico. Assim, Alencar mostra o encontro da natureza, personificada pela índia Iracema, a “virgem dos lábios de mel”, com a civilização europeia, representada pelo navegante Martim, resultando no “nascimento do primeiro cearense”. A história do amor dos protagonistas é uma metáfora do encontro entre civilização e cultura autóctone.
Macunaíma (1928)
Macunaíma, de Mário de Andrade (São Paulo, 1893 – São Paulo, 1945), apresenta o herói sem nenhum caráter. O protagonista, que ora é índio negro ora é branco, até hoje é considerado símbolo do brasileiro em vários sentidos: o do malandro esperto, amoral, que sempre consegue o que quer, e o do povo perdido diante de suas múltiplas identidades. Macunaíma foi forjado a partir de lendas indígenas e populares, colagens de histórias, mitos e modos de vida que, nele somados, deram existência a um tipo brasileiro ideal. Um ser mágico, debochado e zombeteiro, que viaja pelo país de Roraima a São Paulo, descendo o rio Araguaia, do Paraná aos pampas, até chegar ao Rio de Janeiro, acompanhado de seus irmãos, Jiguê e Maanape, numa aventura para recuperar seu amuleto perdido: a muiraquitã. A obra surge no contexto da primeira geração do modernismo, que buscava uma identidade nacional, rompendo com os padrões artísticos europeus ao valorizar a cultura popular brasileira.
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
Na obra de Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839 – Rio de Janeiro, 1908), o finado Brás Cubas decide contar sua história por uma ótica bastante inusitada: em vez de começar pelo seu nascimento, sua narrativa inicia-se pelo óbito. Enquanto rememora as experiências que viveu, o defunto-autor narra as suas desventuras e revela as contradições da sociedade brasileira do século XIX, por meio de uma análise aprofundada de seus personagens. Memórias Póstumas de Brás Cubas retrata o período do Brasil Império, especialmente a elite burguesa do Rio de Janeiro, marcada por mudanças sociais e ascensão de novos valores.
Os Sertões (1902)
A partir do trabalho jornalístico de Euclides da Cunha (Rio de Janeiro, 1866 – Rio de Janeiro, 1909) sobre a rebelião de Canudos, surge esta obra sobre o sertão, as injustiças sociais do Brasil e a violência que marcou o País. Ao narrar a violenta e exaustiva repressão sofrida pelo bando de Antônio Conselheiro, o autor narra também a formação do homem sertanejo. Os Sertões denuncia os crimes cometidos por uma sociedade eurocêntrica, violenta, autoritária, desigual e excludente, além de desafiar qualquer resposta fácil para as questões sertanejas.
Quarto de Despejo (1960)
Do diário de Carolina Maria de Jesus (Minas Gerais, 1914 – São Paulo, 1977) surgiu este autêntico exemplo de literatura-verdade. Quarto de Despejo é o retrato do cotidiano triste e cruel de uma mulher que sobrevive como catadora de papel e faz de tudo para espantar a fome e criar seus filhos na favela do Canindé. Em meio a um ambiente de extrema pobreza e desigualdade de classe, de gênero e de raça, o leitor se depara com o duro dia a dia de quem não tem amanhã, mas que ainda assim resiste diante da miséria, da violência e da fome.
Vidas secas (1938)
Vidas secas conta a história de uma família de retirantes que, na planície avermelhada do sertão, enfrenta a seca, a fome, o desamparo e a violência das instituições, em busca de vida nova. Fabiano, sinha Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e a cachorra Baleia caminham dias inteiros, à procura de água, comida e pouso. No trajeto, encontram com figuras essenciais para compreender o contexto histórico e social da obra-prima de Graciliano Ramos (Alagoas, 1892 – Rio de Janeiro, 1953), marco da segunda fase do modernismo, que se tornou registro da identidade de um povo.
