Mostra, que poderá ser acompanhada pelo público, em tempo real e gratuitamente, será realizada na cidade de Tracunhaém, na Zona da Mata Norte, neste sábado, 20
Estilista transforma tradição da arte popular pernambucana em força da moda autoral internacional
Na cidade conhecida internacionalmente pela cerâmica em barro, estilista traduz identidade regional em tecidos, cores e texturas que projetam a moda autoral pernambucana
Em Tracunhaém, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, a arte sempre nasceu da terra. Desde os séculos XVII e XVIII, quando povos indígenas e populações africanas escravizadas passaram a moldar a argila retirada do próprio território, o barro tornou-se linguagem cultural, sustento econômico e marca identitária da cidade.
Ao longo do tempo, a tradição atravessou gerações e transformou o município em referência internacional da arte popular brasileira, conhecido pelas esculturas que retratam santos, trabalhadores rurais e cenas do cotidiano nordestino.
Na cidade onde o barro ganha forma, traços e personalidade, a moda autoral também começa a ocupar espaço como continuidade dessa tradição, traduzindo em tecido aquilo que antes se expressava apenas na cerâmica.
À frente da marca Rafretá, um estilista pernambucano vem se destacando ao transformar referências da arte popular em roupas que carregam identidade regional. Suas criações dialogam diretamente com o território: cores terrosas, texturas orgânicas e processos manuais aproximam o vestuário da estética construída há séculos pelos artesãos locais.
A camisa Estandarte Pernambucano, uma das peças mais representativas da marca, sintetiza essa proposta. A criação reúne elementos culturais do estado e expressa uma moda artesanal, bairrista e cultural, construída a partir do pertencimento e da memória coletiva.
A relação com a criação começou ainda na infância, quando o estilista improvisava roupas para bonecas utilizando materiais disponíveis em casa. O gesto intuitivo evoluiu para linguagem artística anos depois, especialmente durante a pandemia, período em que a costura deixou de ser apenas prática manual e passou a representar expressão criativa e sustentação profissional.
A primeira máquina de costura foi emprestada por uma vizinha, episódio que marca o início de uma trajetória construída com poucos recursos, mas marcada pela persistência. Ao longo do tempo, a prática trouxe aprendizados que ultrapassam a técnica, como disciplina, paciência e dedicação — elementos que hoje estruturam o processo criativo da marca.
Cada peça nasce a partir de pesquisa, rabiscos e experimentações. Tecidos naturais como algodão, linho e seda são priorizados, reforçando a preocupação com sustentabilidade e qualidade. No ateliê, instalado em uma antiga casa de família transformada em espaço criativo, sete pessoas participam de todas as etapas da produção, do croqui à entrega final. Uma única camisa pode levar cerca de sete horas para ficar pronta.
Inicialmente voltada para moda festa e vestidos de noiva, a marca ampliou sua atuação ao desenvolver figurinos ligados aos ciclos culturais nordestinos, como Carnaval e festas juninas, mantendo o mesmo DNA artesanal. A visibilidade cresceu quando artistas da música brasileira passaram a vestir suas criações, entre eles Almério, Raí, Lipe Lucena e Taiguara Borges, ampliando a circulação do trabalho para além do estado.
Nos últimos anos, as criações da RAFRETÁ ultrapassaram os limites do ateliê instalado na Zona da Mata Norte pernambucana e passaram a circular por diferentes territórios e públicos. Peças produzidas sob encomenda já seguiram para clientes e admiradores na Europa e nos Estados Unidos, com pedidos vindos especialmente da França, Portugal e Alemanha, além de brasileiros residentes no exterior que buscam vestir criações conectadas à identidade cultural do Nordeste.
Esse movimento internacional, impulsionado principalmente pelas redes sociais e pelo reconhecimento artístico da marca, tem ampliado o alcance do trabalho do estilista, levando a estética inspirada na arte popular pernambucana a novos contextos culturais e reafirmando que a produção autoral do interior também dialoga com o mercado global sem abrir mão de suas raízes.
A trajetória acompanha um movimento mais amplo da moda pernambucana contemporânea, que vem ganhando reconhecimento nacional ao valorizar identidade cultural, sustentabilidade e produção artesanal. Criadores do estado têm contribuído para descentralizar o mapa da moda brasileira, historicamente concentrado no eixo Rio-São Paulo, revelando novas geografias criativas no país.
Ser homem atuando na moda autoral em uma região ainda marcada por preconceitos também trouxe desafios. Limitações estruturais, acesso a insumos e dúvidas sobre a viabilidade da carreira fizeram parte do percurso inicial. A permanência veio da conexão com a arte, com a cultura local e com pessoas que acreditaram no projeto.
Hoje, o ateliê funciona como espaço afetivo e criativo ao mesmo tempo, preservando a atmosfera de casa de família enquanto abriga processos contemporâneos de criação. Ver alguém vestindo uma peça produzida ali representa, para o estilista, a confirmação de que a arte local pode atravessar fronteiras sem perder suas raízes.
Release e fotos no link abaixo:
https://drive.google.com/drive/folders/1RWLT2G-vsprI-pAXrF2NwflrwMR-yJDl
Salatiel Cícero- Jornalista
Hub Baobá I Comunicação, Cultura e Inovação
