Em homenagem à resistência do povo afro e indigena, o Mais Belo dos Belos
reafirmou sua força como símbolo de luta e ancestralidade na festa

O Carnaval de Salvador reúne rituais que preservam sua identidade e traduzem a grandiosidade simbólica da festa. A saída do Ilê Aiyê, no Curuzu, é um desses acontecimentos que transcendem a celebração carnavalesca e se reafirmam, a cada ano, como um marco histórico da folia, representando um ato de resistência cultural, religiosa e ancestral. Um verdadeiro portal do tempo onde passado e presente se encontram ao som dos tambores.
Na noite de ontem (14), a Ladeira do Curuzu, na Liberdade, voltou a ser palco desse momento emblemático. Uma multidão ocupou cada espaço em frente à Senzala do Barro Preto para acompanhar a estreia do Mais Belo dos Belos em mais um desfile no Carnaval de Salvador. A noite contou ainda com a presença do vice-governador da Bahia, Geraldo Júnior, além de outras autoridades, que prestigiaram o bloco que transformou para sempre a história da festa na Bahia e no Brasil.
Os primeiros toques dos tambores ecoaram pela ladeira, anunciando o início do tradicional ritual de bênção de saída que antecede a ida do bloco à avenida. Do alto da varanda do terreiro Asé Jitolu, a bênção foi concedida pela ialorixá Hildelice Benta dos Santos, filha e sucessora da matriarca Mãe Hilda de Jitolu, mantendo vivo o legado ancestral da casa. Milho branco, pipoca e pó de pemba foram lançados sobre a multidão como símbolos de proteção e renovação.
O ritual foi encerrado com a tradicional soltura das pombas brancas, dedicadas a Oxalá, gesto que simboliza paz, liberdade e esperança e marcou o início da subida do Ilê Aiyê pela Ladeira do Curuzu. Durante a cerimônia, duas pombas pousaram sobre o turbante da Deusa do Ébano o que ,para muitos, reforçou o caráter sagrado do momento e foi interpretado como sinal de proteção e confirmação da força espiritual que envolve a saída do bloco.
Reinado – A estreia do Reinado 2026, marcada pela primeira saída no Carnaval da nova Deusa do Ébano, Carol Xavier, do bairro de Sussuarana, trouxe ainda mais simbolismo à noite. Ela vai desfilar ao lado das princesas Sarah Moraes, também de Sussuarana, e Stephanie Ingrid, do Nordeste de Amaralina, que assumem a missão de representar o Ilê Aiyê na maior festa de rua do mundo. Emocionada, Carol reafirmou o papel do título como referência de beleza, força e representatividade para mulheres e meninas que veem nesse posto um espelho de poder e identidade.
“Meu coração está acelerado, mas muito feliz e tranquilo por compreender que é um compromisso que eu vou levar com muita responsabilidade. É muito bonito e muito sagrado para mim ocupar esse lugar de Deusa, porque eu compreendo que trago uma outra perspectiva de vida para as crianças e mulheres, não somente da minha comunidade, mas de Salvador inteira. Quero trazer para elas um lugar de empoderamento e fazer com que compreendam que também podem estar nesse aqui”, afirmou.
Tema 2026 – No Carnaval de 2026, o primeiro bloco afro do Brasil acompanha o tema “Turbantes e Cocares: a história de resistência do povo afro e indígena de Maricá”, conectando Bahia e Rio de Janeiro a partir da memória, da ancestralidade e da luta de povos afro-indígenas que sustentam, geração após geração, as bases da identidade brasileira.
“A escolha do tema vem dessa necessidade de fortalecer a compreensão sobre os nossos símbolos, como o turbante, e abrir mais a cabeça das pessoas para falar sobre o bloco afro e a nossa cultura. Isso é importante principalmente para os jovens de hoje estarem dentro da cultura, dentro da tradição, porque esse material depois vira material didático, vira conhecimento. Quando começamos o Ilê Aiyê, ninguém queria ser negro, era moreno, ‘marrom-glacê’, ‘chocolate’, tudo menos negro. Hoje a gente já vê os jovens se interessando mais, se reconhecendo mais, e isso é resultado desse trabalho”, realça o presidente do bloco Ilê Aiyê, Antônio Carlos Vovô.
O Ritual do Ilê Aiyê no Carnaval 2026 é uma realização da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê e do Ministério da Cultura, em parceria com a Caderno 2 Produções. Apoio: Grupo A TARDE, ITS Brasil e Programa Ouro Negro, uma iniciativa do Governo da Bahia. Patrocínio: Grupo Belov, iFood, Prefeitura de Salvador, Prefeitura de Maricá. E se tem patrocínio CAIXA, tem Governo do Brasil.

