Ministério dos Povos Indígenas investe R$ 9,3 milhões para impulsionar bioeconomia e autonomia no Nordeste
|
Em parceria com IFSeertão, iniciativa pioneira promove formação técnica, assistência produtiva e valorização dos saberes ancestrais no território Xukuru de Ororubá e em outras comunidades da região
Na quarta-feira (20/05), o ministro dos Povos Indígenas (MPI), Eloy Terena, compareceu à Aldeia Pedra D’água, em Pesqueira-PE, durante a 26ª Assembleia do Povo Xukuru de Ororubá. A visita oficial marcou o fortalecimento do projeto Aldeias Produtivas do Sertão, uma iniciativa conjunta entre o MPI e o Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE). Viabilizado por meio do Termo de Execução Descentralizada (TED) nº 12/2025 da pasta, o projeto prevê um investimento total de R$ 9.392.700 para promover a inclusão socioprodutiva e a autonomia financeira de comunidades indígenas do Nordeste.
O projeto tem como objetivo central o desenvolvimento de pesquisas e estudos técnico-científicos para apoiar atividades produtivas indígenas através da educação profissional e tecnológica integrada à bioeconomia. Segundo o ministro Eloy Terena, a iniciativa já está fomentando a formação de uma centena de estudantes indígenas em áreas estratégicas na Aldeia Pedra D’água.
A formação dos estudantes está dividida em dois eixos principais: a Produção e Audiovisual e a Medicina Tradicional, focado no fortalecimento dos conhecimentos ancestrais de cura. “É o Ministério dando uma atenção especial a estes povos que estão localizados nessa região, que foi a região que mais sofreu o impacto do processo colonial”, destacou Terena, ressaltando o caráter pioneiro da parceria ao focar especificamente no bioma da Caatinga e do Agreste.
Casa de Semente
No território indígena Xukuru de Ororubá, onde está localizada a Aldeia Pedra D’água, Eloy Terena cumpriu uma agenda de compromissos institucionais, educacionais e simbólicos. Os principais pontos da agenda incluíram uma visita à Casa de Sementes, em que o ministro vistoriou a execução do projeto Aldeias Produtivas do Sertão. No local, ele visitou as áreas de formação técnica que beneficiam os estudantes indígenas ao estimular a formação de jovens para atuarem como multiplicadores de conhecimento em suas próprias comunidades.
A Casa de Sementes desempenha um papel central na execução prática do projeto ao funcionar como o laboratório vivo do projeto, transformando investimento em ações concretas de preservação cultural e desenvolvimento econômico sustentável. Além disso, o espaço promove a integração de saberes. A escolha do local simboliza a articulação entre os conhecimentos tradicionais e a inovação tecnológica proposta pelo TED. Enquanto o local preserva a essência da ancestralidade, ele também introduz novas competências em bioeconomia e produção técnica. Para o ministro, a atuação na Casa de Sementes reflete o fortalecimento espiritual e identitário do povo. Ele destaca que o trabalho realizado permite que a luta indígena continue “gerando mais sementes”, influenciando outros povos e garantindo a continuidade da resistência e da autonomia no semiárido. Agenda Eloy Terena participou de uma celebração religiosa, uma missa sincrética promovida no cemitério da aldeia, em homenagem à liderança histórica do povo Xukuru, o Cacique Xicão. Ele descreveu o momento como um “reencontro com a ancestralidade” e uma oportunidade de fortalecimento espiritual para a continuidade dos trabalhos em Brasília.
Metas O ministro ressaltou que fomento às iniciativas já existentes nos territórios unem a qualificação técnica ao empreendedorismo indígena para garantir autonomia às comunidades. O propósito do investimento reside na vulnerabilidade socioeconômica enfrentada pelos povos do Nordeste, que, apesar de possuírem saberes ancestrais vitais para a conservação territorial, ainda lidam com exclusão social.
O plano de trabalho do TED estabelece metas que se estendem de novembro de 2025 a dezembro de 2026. Os recursos serão aplicados de forma direta pelo IFSertãoPE, incluindo custos operacionais e administrativos necessários para a execução das atividades em campo. O Aldeias Produtivas do Sertão oferecerá capacitações técnicas e científicas mais amplas para as comunidades, que incluem:
Projeto ramificado Embora tenha o território Xukuru como um de seus pontos focais, o projeto é adaptado para a realidade de diferentes povos da região. Além do território em Pesqueira (PE), o projeto possui uma ramificação que abrange diversas outras comunidades e povos indígenas nos estados de Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe, uma vez que a iniciativa foi desenhada para atender Terras Indígenas localizadas especificamente nos biomas da Caatinga e do Agreste. As regiões e povos beneficiados:
Pernambuco
Bahia
Alagoas
Sergipe
Do aprendizado à prática: a evolução e o histórico do modelo pioneiro Aldeias Produtivas do Sertão não nasceu de forma isolada, mas sim de uma percepção prática sobre os limites da capacitação técnica convencional. Segundo o coordenador do projeto, Tarcísio Nunes Santos, a primeira etapa da iniciativa foi moldada pela experiência do IFSertãoPE com o povo Atikum, em Salgueiro-PE. Naquela ocasião, o instituto percebeu que apenas oferecer cursos de apicultura era insuficiente, pois os indígenas não possuíam capital para adquirir o equipamento básico, como caixas de abelha. Dessa lacuna surgiu o diferencial que tornou o projeto único no Brasil. O objetivo de casar educação profissional com investimento direto em infraestrutura. “Isso nos deu o ‘know-how’ para pleitear esse projeto junto ao ministério, que é o primeiro de educação profissional voltado para povos indígenas”, afirma Santos. O sucesso e a visibilidade das ações iniciais levaram diversas comitivas indígenas a solicitarem ao MPI a expansão do programa. O atual TED nº 12/2025 é, portanto, um aditivo estratégico desenhado para aprofundar o impacto social e atingir três novas comunidades que demandam profissionalização. São elas: os Tuxás de Muquém do São Francisco-BA, os Xocós de Porto da Folha-SE e os Fulni-ô, de Águas Belas-PE, estes últimos com foco em aporte de infraestrutura. Com um orçamento total consolidado em quase R$ 9,4 milhões, o projeto agora se estrutura para atender cerca de 300 formandos anualmente. Tarcísio Nunes Santos ressalta que essa expansão responde a um clamor por autonomia. “O projeto é pioneiro. A gente espera muito que, com o êxito dele, vire um programa realmente de governo que possa ser expandido para o Brasil todo”. Conforme o coordenador, o histórico demonstra que a transição de cursos isolados para um modelo de Aldeias Produtivas permitiu que o conhecimento ancestral fosse potencializado por ferramentas modernas, garantindo que o indígena não apenas aprenda uma técnica, mas tenha os meios físicos, como laboratórios e maquinários especializados, para processar e comercializar seus produtos de forma justa e profissional. A força dos 43 mil indígenas de Pernambuco A implementação do projeto ocorre em um cenário de densa complexidade demográfica e desafios de reconhecimento identitário. Segundo Rosália Ramos Pankararu, coordenadora do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Pernambuco, o estado abriga uma das maiores populações indígenas do Brasil, com cerca de 43 mil pessoas distribuídas entre 15 etnias. O território Xukuru de Ororubá, onde o MPI lançou as etapas de formação técnica, é o maior polo de atendimento do distrito, concentrando sozinho 9 mil indígenas cadastrados no sistema oficial de saúde. Para Rosalía, o investimento do governo federal em bioeconomia e autonomia técnica dialoga com uma luta histórica por visibilidade. Ela destaca que um dos principais obstáculos enfrentados pelas comunidades pernambucanas é o preconceito institucional que ignora a força cultural e espiritual desses povos devido à miscigenação. “Não reconhecem nossa cultura porque não temos estereótipos de olhos puxados ou cabelos lisos”, afirma a coordenadora, ressaltando que essa visão simplista muitas vezes exclui os indígenas de políticas públicas adequadas. A relevância do TED assinado entre o MPI e o IFSertãoPE ganha contornos mais nítidos quando observada a geografia da região. O DSEI Pernambuco gerencia um mosaico expressivo de populações indígenas que vai de aldeias próximas à capital até comunidades situadas a mais de 600 quilômetros de distância de Recife. Essa dispersão exige que projetos de desenvolvimento, como o de assistência técnica agroecológica, respeitem as particularidades de cada povo. A fala de Rosalia complementa a iniciativa do MPI ao reforçar que a autonomia financeira pretendida pelo projeto Aldeias Produtivas é um passo essencial para fortalecer a organização social indígena. Ao garantir que os jovens permaneçam em seus territórios com formação técnica e dignidade, o projeto os reafirmando como detentores de direitos e de uma identidade ancestral viva e produtiva. O modelo Xukuru como eixo de desenvolvimento regional A consolidação do projeto Aldeias Produtivas do Sertão no território Xukuru ganha uma dimensão política e histórica singular sob a liderança de Marcos Xukuru. Atuando simultaneamente como cacique da nação Xukuru e prefeito de Pesqueira, Marcos vê na parceria entre o MPI e o IFSertãoPE uma forma de institucionalizar a presença do Estado em um território que, durante décadas, teve que lutar pela sua própria sobrevivência.
A escolha da Aldeia Pedra D’água para sediar a assembleia e o lançamento das etapas do projeto não é apenas logística, mas simbólica, pois é considerada a aldeia mãe e o centro geográfico e espiritual das 24 aldeias que compõem os mais de 27 mil hectares do território. A data do evento, 20 de maio, também carrega um peso histórico, marcando o aniversário do assassinato do Cacique Chicão, pai de Marquinhos, morto em 1998 em meio à disputa pela terra. Para a liderança atual, o projeto Aldeias Produtivas é uma semente que brota desse legado de autodemarcação e resistência, agora voltada para a gestão sustentável e a permanência digna da juventude no campo.
Além do fortalecimento cultural através dos cursos de audiovisual e medicina tradicional, a iniciativa dialoga diretamente com a vocação produtiva do território. Os Xukuru já são grandes fornecedores de hortaliças, mel e grãos para Pesqueira e outras cidades do Agreste, como Caruaru. A introdução de tecnologias sustentáveis e biotecnologia visa potencializar essa agricultura familiar ativa, transformando o território em um polo de bioeconomia que abastece grandes centros urbanos de Pernambuco.
No campo político, Marquinhos destaca que sua gestão na prefeitura de Pesqueira busca aplicar a lógica da organização sociopolítica indígena ao governo municipal. Enfrentando as tradicionais oligarquias locais, ele utiliza o exemplo do sucesso produtivo das aldeias para implementar políticas públicas participativas para os 68 mil habitantes do município. Assim, o TED nº 12/2025 não apenas financia equipamentos e cursos, mas reforça um modelo de autonomia onde o povo indígena deixa de ser apenas beneficiário para se tornar protagonista do desenvolvimento econômico regional. |
